Abobora gila- Cucurbita ficifolia

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abóbora gila (Cucurbita ficifolia), também conhecida em algumas regiões por chila, cidra, abóbora-de-cabelo , é uma espécie pertencente à família das Cucurbitaceae, a mesma família das abóboras, melões, pepinos e curgetes. É uma planta muito apreciada na Península Ibérica e em vários países da América Latina, onde é cultivada tanto pelo seu valor gastronómico como pela sua rusticidade e elevada produtividade.

Embora seja menos conhecida do que outras espécies de abóbora, a abóbora gila possui características muito particulares que a tornam única. O seu fruto é utilizado principalmente na preparação do tradicional doce de gila, um doce típico da gastronomia portuguesa e espanhola, amplamente utilizado no recheio de bolos, tortas, pastéis e outros produtos de pastelaria.

A origem da abóbora gila situa-se nas regiões montanhosas da América Central e da América do Sul, especialmente no México, Guatemala, Colômbia, Peru e zonas andinas, onde é cultivada há vários séculos. Com a chegada dos exploradores espanhóis e portugueses ao continente americano, a planta foi introduzida na Europa, adaptando-se muito bem ao clima mediterrânico.

Atualmente é cultivada em Portugal, Espanha, França, Itália, América do Sul, México, Estados Unidos, Ásia e diversas regiões de clima temperado.

Botanicamente, a espécie é designada por Cucurbita ficifolia  distingue-se facilmente das restantes espécies de abóbora pelas suas folhas profundamente recortadas, semelhantes às folhas da figueira, característica que deu origem ao nome "ficifolia", que significa precisamente "folhas de figueira". Outra característica muito particular são as suas sementes, que são grandes, lisas e completamente negras, algo pouco comum entre as espécies do género Cucurbita.

A planta apresenta um crescimento extremamente vigoroso, desenvolvendo longas ramas rastejantes ou trepadoras que podem ultrapassar facilmente os 10 metros de comprimento. As folhas são grandes, verdes e muito decorativas, enquanto as flores, de cor amarela intensa, surgem separadamente em flores masculinas e femininas na mesma planta. A polinização é efetuada principalmente por abelhas e outros insetos polinizadores.

O sistema radicular é profundo e robusto, permitindo à planta explorar grandes volumes de solo e suportar relativamente bem períodos de seca depois de estabelecida.

Os frutos apresentam normalmente forma arredondada ou ligeiramente oval, podendo atingir entre 20 e 40 centímetros de diâmetro e pesar entre 3 e 8 quilogramas, embora em boas condições possam ultrapassar facilmente os 15 quilogramas. A casca é muito dura, lisa e resistente, geralmente de cor verde-escura com manchas ou riscas verde-claras e esbranquiçadas.

No interior encontra-se uma polpa branca, firme e fibrosa que, depois de cozida, se desfaz naturalmente em longos fios semelhantes a cabelo, característica que tornou esta espécie famosa e lhe deu origem a nomes populares como "abóbora-de-cabelo". Esta textura única é a principal razão pela qual é utilizada na preparação do tradicional doce de gila.

A abóbora gila desenvolve-se melhor em climas temperados e quentes, sendo as temperaturas ideais para o seu crescimento compreendidas entre os 20 °C e os 30 °C. Necessita de pleno sol durante todo o ciclo de cultivo e não tolera geadas. Em Portugal adapta-se muito bem às condições da primavera e do verão, produzindo excelentes colheitas em praticamente todo o país.

Quanto ao solo, prefere terrenos profundos, férteis, ricos em matéria orgânica e bem drenados, com um pH entre 6,0 e 7,5. Embora consiga crescer em solos menos férteis, responde muito bem à incorporação de composto ou estrume bem curtido antes da plantação.

Por produzir ramas muito extensas, necessita de bastante espaço para se desenvolver. O ideal é deixar entre 2 e 3 metros entre plantas e cerca de 3 metros entre linhas. Quando conduzida sobre estruturas, grades , pode ocupar áreas ainda maiores, facilitando simultaneamente a colheita e a circulação de ar.

Durante o crescimento inicial é importante manter o solo uniformemente húmido. Depois de estabelecida, apresenta boa resistência ao calor e alguma tolerância à seca, embora regas regulares durante a formação dos frutos permitam obter abóboras maiores e de melhor qualidade. Deve evitar-se o encharcamento do solo, que favorece o aparecimento de doenças nas raízes.

Por ser uma planta bastante vigorosa, beneficia de fertilizações orgânicas ricas em matéria orgânica. A aplicação de composto, estrume bem curtido ou fertilizantes ricos em potássio durante a frutificação contribui para melhorar o desenvolvimento e a qualidade dos frutos.

A colheita realiza-se normalmente entre setembro e novembro, quando os frutos atingem a maturação completa. A casca torna-se extremamente dura e o pedúnculo começa a secar, indicando que a abóbora está pronta para ser colhida. Uma das grandes vantagens desta espécie é a sua excelente capacidade de conservação. Quando armazenados em local fresco, seco e bem ventilado, os frutos podem manter-se em perfeitas condições durante vários meses sem necessidade de refrigeração.

Cada planta pode produzir entre três e dez frutos, dependendo das condições de cultivo, da fertilidade do solo e dos cuidados prestados. Em boas condições é considerada uma espécie bastante produtiva.

A utilização culinária mais conhecida da abóbora gila é, sem dúvida, a preparação do tradicional doce de gila. Após a cozedura, a polpa separa-se espontaneamente em longos fios que, depois de escorridos, são cozinhados com açúcar, limão e, por vezes, canela, originando um doce muito apreciado. Este doce é utilizado como recheio de diversos produtos tradicionais, incluindo Dom Rodrigos, tortas, queijadas, folares, travesseiros, pastéis e muitos doces conventuais portugueses.

Além do doce, em alguns países da América Latina a polpa é utilizada na confeção de sobremesas, compotas e outros pratos tradicionais. As sementes também podem ser torradas e consumidas, embora sejam menos utilizadas do que as de outras espécies de abóbora.

Do ponto de vista nutricional, a polpa apresenta baixo teor calórico e elevado teor de água, sendo rica em fibras alimentares e contendo vitamina C, pequenas quantidades de vitamina A, bem como minerais como potássio, cálcio, fósforo e magnésio. Quando transformada em doce, o teor de açúcar aumenta naturalmente o valor energético do produto final.

Entre os principais benefícios da abóbora gila destacam-se o elevado teor de fibras, que contribui para o bom funcionamento intestinal, a presença de vitaminas e minerais importantes para uma alimentação equilibrada, a excelente capacidade de conservação dos frutos, a elevada produtividade da planta e a boa adaptação ao clima português. Além disso, quando cultivada em boas condições, apresenta boa resistência a diversas doenças.

Uma curiosidade interessante é que a Cucurbita ficifolia é frequentemente utilizada como porta-enxerto para melancias e, em alguns casos, também para pepinos e melões, graças ao seu sistema radicular vigoroso e à resistência que oferece a algumas doenças do solo.

A sementeira pode ser realizada diretamente no local definitivo ou em vasos para posterior transplante. Em Portugal recomenda-se semear entre março e junho, dependendo da região e das temperaturas. As sementes devem ser colocadas a cerca de 2 a 3 centímetros de profundidade e germinam normalmente entre 7 e 14 dias quando o solo apresenta temperaturas superiores a 20 °C.

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